Uma estátua. Gigante, tanto quanto a humana soberba. Uma estátua de fisionomia impressionante: extremamente brilhante, de aspecto terrível. A cabeça de ouro fino, os peitos e braços de prata, o ventre e as coxas, de bronze, as pernas de ferro e, finalmente, os pés, de barro e ferro (cf. Dn 2,31-45).
Estátua misteriosa, tanto quanto a história humana, feita de sonhos, ideias mirabolantes, esperanças e certezas tão incertas... História humana, na qual os filhos de Adão, procurando em si mesmos a felicidade, constroem monstros tremendos, feras que os devoram...
Os membros da estátua são uma sucessão de impérios, de sonhos humanos de grandeza. Na época eram os impérios babilônio, medo, persa, o de Alexandre e, finalmente, o que restou da divisão entre seus sucessores, que nunca se uniram, como o ferro e o barro não se unem... E depois, e hoje, e amanhã, o homem continua a formar impérios: o romano, o chinês, o bizantino, o napoleônico, o otomano, o britânico, o norte-americano... E mais outros: o império da ciência, aquele outro, da técnica, o império do prazer e do consumo... O de uma razão tola, soberba, fechada em si mesma, sem Deus... Impérios...
Estátua gigante, essa feita pelos filhos de Adão, degredados filhos de Eva, que pensam já estarem no Paraíso – seu próprio Paraíso... E, depois, uma pedrinha desprendida da montanha, firme como o Senhor do Universo... Um pedrinha desprendida sem intervenção humana, (uma pedrinha caída no seio da Virgem)... Uma pedrinha surpreendente e gratuita, insignificante diante de tão grande estátua...
E a pedrinha (pedra rejeitada, feita pedra angular) inesperadamente, contra toda a humana probabilidade, destroça a estátua, fazendo-a pó: pó o ouro, pó a prata, pó o bronze, pó o ferro, pó o barro: tudo pó, igualmente, democraticamente, inapelavelmente! “Tu és pó! Sem o teu Deus, tu voltarás ao pó! Só o Senhor, que é vida gloriosa, pode livrar-te da volta ao pó”...
E a pedrinha tornou-se montanha majestosa, que foi, pouco a pouco (como o grão de mostarda, como a rede jogada no mar e puxada para a praia, como o trigo que cresce), tomando e enchendo a face da terra.
Pedrinha bendita, santa Montanha, doce Jesus! Rei do reino que o Senhor Deus suscita para nós e apesar de nós! Bendita Pedrinha, santa Montanha do Reino sem fim! Bendito Jesus, que permanece para sempre. Este sonho sim: o sonho do Reino de Deus que o Cristo trouxe, que já está em cada coração que o acolhe com unção, amor e piedade, este sonho é verdadeiro, e sua interpretação, fiel!
Senhor, venha o teu Reino! Passe logo este mundo transitório e venha a tua graça! Maranathá!
Das “Meditações sobre o Evangelho”, pelo Bem-aventurado Charles de Foucauld (1858-1916), sacerdote eremita e missionário no Saara:
Não desprezemos os pobres, os pequenos; para além de serem nossos irmãos em Deus, são os que imitam mais perfeitamente Jesus na Sua vida exterior.
Eles representam perfeitamente Jesus, o operário de Nazaré. Eles são os anciãos entre os eleitos, os primeiros a ser chamados ao berço do Salvador. Eles foram os companheiros habituais de Jesus, do Seu nascimento até à morte; a eles pertenciam Maria e José e os apóstolos.
Longe de os desprezar, honremo-los, honremos neles a imagem de Jesus e dos Seus santos pais; em lugar de os desdenhar, admiremo-los. Imitemo-los e, dado que vemos que a sua condição é a melhor, aquela que Jesus escolheu para Si mesmo, para os seus, aquela que chamou em primeiro lugar para junto do Seu berço, aquela que Ele mostrou pelos Seus atos e palavras, abracemo-la. Sejamos pobres operários como Ele, como Maria, José, os apóstolos, os pastores, e se algum dia Ele nos chamar para o apostolado, permaneçamos nesta vida tão pobres como Ele nela permaneceu, tão pobres como nela ficou um São Paulo «o seu fiel imitador» (cf 1Cor 11,1).
Não deixemos nunca de ser em tudo pobres, irmãos dos pobres, companheiros dos pobres, sejamos os mais pobres dos pobres como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles.
Das Homilias de São Paciano de Barcelona (séc. IV), bispo:
«Assim como trouxemos a imagem do homem da terra, assim também levaremos a imagem do homem celeste; [porque] o primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo vem do céu» (1Cor 15,49.47).
Se assim agirmos, meus bem-amados, não morreremos no futuro. Mesmo que o nosso corpo se dissolva, viveremos em Cristo, conforme Ele afirma: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá» (Jo 11,25).
Estamos certos, segundo o testemunho do próprio Senhor, de que Abraão, Isaac, Jacó e todos os santos estão vivos. Porque é acerca deles que o Senhor diz: «Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois, para Ele, todos estão vivos» (Lc 20,38). E o apóstolo Paulo diz, falando de si próprio: «É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Tenho o desejo de partir e de estar com Cristo» (Fl 1,21.23). Diz ainda: «Estamos sempre confiantes e conscientes de que, permanecendo neste corpo, vivemos exilados, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão» (2Cor 5,6-7).
Eis aquilo em que acreditamos, irmãos bem-amados. Aliás, o apóstolo diz também: «E se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens» (1Cor 15,19).
A vida neste mundo, como vedes, é igual para os animais, as feras, os pássaros, e para nós próprios, e pode até ser mais longa para eles. Mas o que é próprio do homem, é o que Cristo nos deu pelo Seu Espírito, e que é a vida sem fim, sob condição de não voltarmos a pecar: «É que o salário do pecado é a morte; ao passo que o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rom 6,23).
Dos Escritos de Orígenes (185-253), presbítero e teólogo:
O reino do pecado é inconciliável com o reino de Deus. Portanto se queremos que Deus reine sobre nós, «que o pecado não reine mais no vosso corpo mortal». Mas «crucifiquemos os nossos membros no que toca à prática de coisas da terra», demos frutos do Espírito.
Assim, como num paraíso espiritual, o Senhor passeará em nós, reinando sozinho com o Seu Cristo. Este será entronado em nós «à direita do Todo-Poderoso» que desejamos receber até que todos os Seus inimigos presentes em nós «se tornem estrado para os Seus pés» e seja expulso para longe «todo o principado, toda a dominação e poder».
Tudo isto pode acontecer em cada um de nós até que seja destruído «o último inimigo: a morte» e Cristo diga em nós: «Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?»
Por isso, desde agora, que tudo o que é «corruptível» em nós se torne santo e «se revista de incorruptibilidade» e o que é «mortal» se «revista da imortalidade» do Pai. Assim, Deus reinará sobre nós e estaremos desde já na alegria do novo nascimento e da ressurreição.
Caro Internauta, eis o que diz a nossa fé católica sobre o fim dos tempos. São os números do Catecismo da Igreja Católica:
675. Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado.
676. Esta impostura anticrística já se esboça no mundo, sempre que se pretende realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela, através do juízo escatológico. A Igreja rejeitou esta falsificação do Reino futuro, mesmo na sua forma mitigada, sob o nome de milenarismo, e principalmente sob a forma política dum messianismo secularizado, «intrinsecamente perverso».
677. A Igreja não entrará na glória do Reino senão através dessa última Páscoa, em que seguirá o Senhor na sua morte e ressurreição. O Reino não se consumará, pois, por um triunfo histórico da Igreja segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal, que fará descer do céu a sua Esposa. O triunfo de Deus sobre a revolta do mal tomará a forma de Juízo final, após o último abalo cósmico deste mundo passageiro.
678. Na sequência dos profetas e de João Baptista, Jesus anunciou, na sua pregação, o Juízo do último dia. Então será revelado o procedimento de cada um e o segredo dos corações. Então, será condenada a incredulidade culpável, que não teve em conta a graça oferecida por Deus. A atitude tomada para com o próximo revelará a aceitação ou a recusa da graça e do amor divino. No último dia, Jesus dirá: «Sempre que o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» (Mt 25,40).
679. Cristo é Senhor da vida eterna. O pleno direito de julgar definitivamente as obras e os corações dos homens pertence-Lhe a Ele, enquanto redentor do mundo. Ele «adquiriu» este direito pela sua cruz. Por isso, o Pai entregou «ao Filho todo o poder de julgar» (Jo 5,22). Ora, o Filho não veio para julgar, mas para salvar e dar a vida que tem em Si. É pela recusa da graça nesta vida que cada qual se julga já a si próprio, recebe segundo as suas obras e pode, mesmo, condenar-se para a eternidade, recusando o Espírito de amor.
Resumindo:
680. Cristo Senhor reina já pela Igreja, mas ainda não Lhe estão submetidas todas as coisas deste mundo. O triunfo do Reino de Cristo só será um fato, depois dum último assalto das forças do mal.
681. No dia do Juízo, no fim do mundo, Cristo virá na sua glória para completar o triunfo definitivo do bem sobre o mal, os quais, como o trigo e o joio, terão crescido juntos no decurso da história.
682. Quando vier; no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos, Cristo glorioso há-de revelar a disposição secreta dos corações, e dará a cada um segundo as suas obras e segundo tiver aceito ou recusado a graça.
Caro Visitante, estamos na última semana do ano litúrgico. Uma característica própria deste período é o impressionante Hino Dies Irae, que a Igreja canta no Ofício Divino. Trata-se de uma composição medieval, de força e imagens impressionantes! No final deste Ano, pensemos também no final da nossa vida... As imagens são fortes e, por vezes, tristes: servem para recordar a seriedade da nossa vida e as contas tremendas que devemos prestar diante do tribunal do Cristo. Não brinquemos com nossa vida nem com nossa liberdade! Eis aqui o Dies Irae, a tradução portuguesa e o hino em latim!
Dia de ira, aquele Dia,/ será tudo cinza fria:/ diz Davi, diz a Sibila.
Que temor será causado,/ quando o Juiz tiver chegado/ para tudo examinar!
Correrão todos ao Trono/ quando, em meio ao eterno sono,/ a trombeta ressoar.
Morte e mundo se espantam,/ criaturas se levantam/ e ao Juiz responderão.
Vai um livro ser trazido,/ no qual tudo está contido,/ onde o mundo está julgado.
Quando Cristo se sentar,/ o escondido vai brilhar,/ nada vai ficar impune!
Eu, tão pobre, que farei?/ Que patrono chamarei?/ Nem o justo está seguro!
Rei tremendo em majestade,/ que salvais só por piedade,/ me salvai, fonte de graça!
Recordai, ó bom Jesus,/ que por mim fostes à cruz,/ nesse Dia me guardai!
A buscar-me, vos cansastes,/ pela cruz me resgatastes,/ tanta dor não seja vã!
Juiz justo no castigo,/ sede bom para comigo,/ perdoai-me nesse Dia!
Pela culpa, se enrubesce/ o meu rosto: ouvi a prece/ e poupai-me, justo Deus!
A Maria perdoando/ e ao ladrão, na cruz, salvando,/ vós me destes esperança.
Meu pedido não é digno,/ mas, Senhor, vós sois benigno/ não me queime o fogo eterno!
No rebanho dai-me abrigo,/ arrancai-me do Inimigo,/ colocai-me à vossa destra!
Quando forem os malditos/ para o fogo eterno, aflitos,/ entre os vossos acolhei-me.
Dum espírito contrito/ escutai, Senhor, o grito:/ tomai conta do meu fim!
Lacrimoso aquele Dia,/ quando em meio à cinza fria/ levantar-se o homem réu.
Libertai-o, Deus do céu!/ Bom Pastor, Jesus piedoso,/ dai-lhe prêmio, paz, repouso!
Vós, ó Deus de majestade,/ vivo esplendor da Trindade,/ entre os eleitos me contai!
Do Tratado Sobre a Trindade, por Santo Hilário de Poitiers (315-367), bispo e doutor da Igreja:
Sei-o bem, ó Deus, Pai todo-poderoso: o principal dever da minha vida é oferecer-me a Ti para que tudo em mim fale de Ti.
Concedeste-me o dom da palavra e, para mim, nada pode ser mais compensatório do que a honra de Te servir e de mostrar ao mundo que o desconhece, ao herético que o nega, que Tu és o Pai do Filho único de Deus.
Sim, esse é na verdade o meu único desejo! Mas tenho uma grande necessidade de implorar o auxílio da Tua misericórdia de forma que, com o sopro do Teu Espírito, enchas as velas da minha fé, estendidas para Ti, e me conduzas a pregar o Teu santo nome por toda a parte. Pois não foi em vão que fizeste esta promessa: «Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á».
Sendo pobres, pedimos o que nos falta. Aplicar-nos-emos com zelo ao estudo dos Teus profetas e dos Teus apóstolos; bateremos a todas as portas que a nossa inteligência encontrar fechadas.
Mas só Tu podes atender a nossa prece; só Tu podes abrir a porta à qual batermos. Encorajar-nos-ás nas dificuldades iniciais; consolidarás os nossos progressos; e chamar-nos-ás a participar do Espírito que guiou os Teus profetas e os Teus apóstolos. Assim, não daremos às suas palavras sentidos diferentes daqueles que eles tinham em mente.
Dá-nos, então, o verdadeiro significado das palavras, a luz da inteligência, a beleza de expressão, a fé na verdade. Concede-nos professar aquilo em que acreditamos: que há um só Deus, o Pai, e um só Senhor, Jesus Cristo.
Caro Internauta, penso seja oportuno ler estas palavras do Governador de São Paulo, José Serra, sobre a visita do Presidente do Irã ao Brasil. O artigo apareceu na Folha de São Paulo de hoje. Concordo com cada palavra do artigo, por isso o proponho aqui. Para onde vai a política externa brasileira? Recebe o Presidente do Irã, vai abrigar o terrorista Battisti... A ideologia é realmente uma droga e está colocando nossa Pátria numa situação vexatória diante das nações democráticas e sérias... Pobre Brasil!
É DESCONFORTÁVEL recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo. Afinal, temos um passado recente de luta contra a ditadura e firmamos na Constituição de 1988 os ideais de democracia e direitos humanos. Uma coisa são relações diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes.
O presidente Ahmadinejad, do Irã, acaba de ser reconduzido ao poder por eleições notoriamente fraudulentas. A fraude foi tão ostensiva que dura até hoje no país a onda de revolta desencadeada. Passados vários meses, os participantes de protestos pacíficos são brutalizados por bandos fascistas que não hesitam em assassinar manifestantes indefesos, como a jovem estudante que se tornou símbolo mundial da resistência iraniana. Presos, torturados, sexualmente violentados nas prisões, os opositores são condenados, alguns à morte, em julgamentos monstros que lembram os processos estalinistas de Moscou.
Como reagiríamos se apenas um décimo disso estivesse ocorrendo no Paraguai ou, digamos, em Honduras, onde nos mostramos tão indignados ao condenar a destituição de um presidente? Enquanto em Tegucigalpa nos negamos a aceitar o mínimo contacto com o governo de fato, tem sentido receber de braços abertos o homem cujo ministro da Defesa é procurado pela Interpol devido ao atentado ao centro comunitário judaico em Buenos Aires, que causou em 1994 a morte de 85 pessoas?
A acusação nesse caso não provém dos americanos ou israelenses. Foi por iniciativa do governo argentino que o nome foi incluído na lista dos terroristas buscados pela Justiça. Se Brasília tem dúvidas, por que não pergunta à nossa amiga, a presidente Cristina Kirchner?
Democracia e direitos humanos são indivisíveis e devem ser defendidos em qualquer parte do mundo. É incoerente proceder como se esses valores perdessem importância na razão direta do afastamento geográfico. Tampouco é admissível honrar os que deram a vida para combater a ditadura no Brasil, na Argentina, no Chile e confratenizar-se com os que torturam e condenam à morte os opositores no Irã. Com que autoridade festejaremos em março de 2010 os 25 anos do fim da ditadura e do início da Nova República?
O extremismo e o gosto de provocação em Ahmadinejad o converteram no mais tristemente célebre negador do Holocausto, o diabólico extermínio de milhões de seres humanos, crianças, mulheres, velhos, apenas por serem judeus. Outros milhares foram massacrados por serem ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência. O Brasil se orgulha de ter recebido muitos dos sobreviventes desse crime abominável, que não pode ser esquecido nem perdoado, quanto menos negado. O mesmo país que tentou oferecer um pouco de segurança e consolo a vítimas como Stefan Zweig e Anatol Rosenfeld agora estende honras a alguém que usa seu cargo para banalizar o mal absoluto?
As contradições não param por aí. O Brasil aceitou o Tratado de Não Proliferação Nuclear e, juntamente com a Argentina, firmou com a Agência Internacional de Energia Atômica um acordo de salvaguardas que abre nossas instalações nucleares ao escrutínio da ONU. Consolidou com isso suas credenciais de aspirante responsável ao Conselho de Segurança e expoente no mundo de uma cultura de paz ininterrupta há quase 140 anos com todos os vizinhos. Por que depreciar esse patrimônio para abraçar o chefe de um governo contra o qual o Conselho de Segurança cansou de aprovar resoluções não acatadas, exortando-o a deter suas atividades de proliferação?
Enfim, trata-se da indesejável visita de um símbolo da negação de tudo o que explica a projeção do Brasil no mundo. Essa projeção provém não das ameaças de bombas ou da coação econômica, que não praticamos, mas do exemplo de pacifismo e moderação, dos valores de democracia, direitos humanos e tolerância encarnados em nossa Constituição como a mais autêntica expressão da maneira de ser do povo brasileiro.
As grandes cidades do mundo já estão se enfeitando para o Natal: as capitais da Europa (o continente que renega suas raízes cristãs e deseja retirar os crucifixos das escolas para não corromper as crianças filhas de ateus), Tóquio, a capital do Japão (que não é cristão e não compreende nada de cristianismo) e assim por diante...
Que pena! Roubaram nossas festas cristãs, adulteraram seu sentido, transformaram-nas em pantomimas mundanas, sem nenhum sentido religioso. O Cristo de verdade, o Filho de Deus que se proclama Vida e Sentido da humanidade, desse a nossa sociedade secularizada não quer saber!
Que incômodo ver nossas festas sagradas esvaziadas – e esvaziadas pelos próprios cristãos, que já não percebem o sentido sagrado, santo, misterioso e profundo dos eventos de nossa salvação! Que mundo sem graça, que frieza no coração de uma humanidade que somente se ocupa consigo mesma, somente tem a si no centro de tudo...
Até mesmo em muitíssimas de nossas celebrações litúrgicas, quanto barulho, quando mexe-mexe, quanta agitação, quanta autocelebração, quanto antropocentrismo do sentir-se bem, do movimentar a galera... E quão pouca ou nenhuma atenção ao mistério santo de Deus, quão quase nada de reverência, de espírito de escuta profunda e adorante, quanta incapacidade de elevar o coração e acolher, com surpresa e gratidão, a vinda graciosa do Senhor!
Ah, Advento, ah, Natal, de tanta beleza e tanta frustração para quem lhes conhece o sentido profundo! Até quando? Até quando esse maldito antropocentrismo asfixiante, dentro e fora da Igreja, que nos impede respirar o Eterno? Até quando, Senhor santo e bendito?
Árvore de Natal na China: os cristãos são perseguidos e o Natal-de-Ninguém é comemorado...
No trabalho desta vida em busca do repouso da vida futura
Dos Sermões de Santo Agostinho (354-430), bispo e doutor da Igreja:
Creio que compreendeis, que estas duas mulheres (Marta e Maria), ambas diletas do Senhor, dignas do seu amor, e Suas discípulas, que estas duas mulheres são, por conseguinte, a imagem de duas formas de vida: a vida deste mundo e a vida do mundo futuro, a vida de trabalho e a vida de repouso, a vida nas preocupações e a vida na bem-aventurança, a vida no tempo e a vida eterna.
Duas vidas: meditemos mais longamente sobre elas. Consideremos de que é feita esta vida: não me refiro a uma vida censurável, a uma vida de vícios, de impiedades; não, falo de uma vida de trabalho, carregada de provações, de angústias, de tentações, de uma vida que não tem nada de culpável, de uma vida que era efetivamente a de Marta.
O mal estava ausente desta casa, tanto em Marta como em Maria; se estivesse presente, a chegada do Senhor tê-lo-ia dissipado. Duas mulheres aí viveram e as duas receberam o Senhor, duas vidas admiráveis, retas, uma feita de trabalho, a outra de repouso. Uma de trabalho, mas livre de perturbações, que são obstáculo à vida entregue à ação; a outra isenta de ociosidade, que é obstáculo à vida contemplativa. Havia nesta casa as duas vidas, mas a fonte era a mesma.
A vida de Marta é o nosso mundo; a vida de Maria é o mundo que esperamos. Vivamos este mundo com retidão, para obtermos o outro em plenitude. Que possuímos já dessa vida? Precisamente, neste momento, vivemos de certa maneira essa vida: afastando o trabalho, pondo de parte as preocupações familiares, reuni-vos e escutais. Comportando-vos assim, assemelhais-vos a Maria. Isso torna-se-vos mais fácil do que a mim, que tenho de tomar a palavra. No entanto, o que digo é a Cristo que vou buscá-lo, e este alimento é de Cristo. Porque é o pão comum a todos, e é para isso que vivo em comunhão convosco.
“O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele a glória e poder através dos séculos” (Ap 5,12; 1,6). Estas palavras são da Antífona de Entrada da Solenidade de hoje e dão o sentido profundo desta celebração de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.
Uma pergunta que pode vir – deveria vir! – ao nosso coração é esta: Jesus é Rei? Como pode ser Rei, num mundo paganizado, num mundo pós-cristão, num mundo que esqueceu Deus, num mundo que ridiculariza a Igreja por pregar o Evangelho e suas exigências?... Pelo menos do Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo o mundo não quer saber... Como, então, Jesus pode ser Rei de um mundo que não aceita ser o seu reinado?
E, no entanto, hoje, no último domingo deste ano litúrgico de 2009, ao final de um ciclo de tempo, voltamo-nos para o Cristo, e o proclamamos Rei: Rei de nossas vidas, Rei da história, Rei do cosmo, Rei do universo. A Igreja canta, neste dia, na sua oração: “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe,/ Soberano e Senhor das nações!/ Ó Juiz, só a vós é devido/ julgar mentes, julgar corações”.
O texto do Apocalipse citado no início desta meditação dá o sentido da realeza de Jesus: ele é o Cordeiro que foi imolado. É Rei não porque é prepotente, não porque manda em tudo, até suprimir nossa liberdade e nossa consciência.
É Rei porque nos ama, Rei porque se fez um de nós, Rei porque por nós sofreu, morreu e ressuscitou, Rei porque nos dá a vida. Ele é aquele Filho do Homem da primeira leitura: “Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”. Com efeito, o reinado de Cristo não tem as características dos reinados do mundo.